Eunápio Mário






Nasci em Pesqueira-PE, em 1963, mas só passei lá três dias. Fui criado em Arcoverde-PE e vim para Recife-PE com quatorze anos. Sou servidor público, formado em direito pela UFPE, com pós-graduação na FBV.  Morador do bairro da Boa Vista, no Recife, há 22 anos. Boêmio e olindeiro. Publiquei um livro de poemas chamado Literadura, em 2003, que está disponível em
Participei, ainda, da coletânea Marginal Recife, no volume IV.

Fonte: enviado pelo autor



Lua da Aurora
Eunápio Mário



A lua veio e desceu, ora minguante
Noite horizonte em dia de terça-feira
Cravou-se, adaga, no meu coração passista
Cegou-me a vista ante a luz do sol primeira

Não parecia a lua cheia ao fim da tarde
Trazendo festas sem saber das despedidas
Propondo brindes, entretida com sorrisos
Iluminados, nas conversas divertidas

Era mais lua ressentida com o Levante
Lua acuada, desprovida de fulgor
Despida ao dia, qual certeza de sofista
Desvaneceu-se e já não tem nenhum valor



Avalanche
Eunápio Mário


Desempregados e passando fome
Estão chegando em levas do interior
Às praça, às praças

Vão para os barracos ferver a miséria
E ver na TV a sua própria dor
Vendida em dólares

Estão sós, temem à polícia
Descobrem a malícia, o trânsito, os sinais
Desabam dos morros para as minhas rimas
São as obras-primas dos neoliberais


O descobrimento
 Eunápio Mário



O mal
Quando nesta terra
Aportou com sua nau
Serviu-se de cachaça
E carne crua
Aniquilando
Nossa gente que sorria
E nua vivia

Crise existencial
Da mais cruel
Vinda de lugares frios
Como o gelo
Empunhando o corpo
Cheio de pêlos
Com suas doenças
De além mar

Carregadas
Suas armas com pólvora
E com vírus
Destruíram com espirros
E com tiros
Os que não puderam dominar

Carregadas
Suas burras com o nosso ouro
Restaram as marcas de chicote
Em nosso couro
Nós que ficamos
Escravos neste lugar


Engels
Eunápio Mário


Nas árvores, com medo das outras feras
Nos grupos, na sexual promiscuidade
Descobriu-se o humano, em priscas eras
E a sua inclinação para a civilidade

Do tímido riso, de clava e lança
Às gargalhadas, de arco e flecha
Enfrentou a noite com a clara dança
Do fogo produzido com atrito e mecha

Quando fundiu ferro não mais era selvagem
O respeitável bárbaro, tendo carne e leite
Povoou a Terra, dela fez pastagem
E encontrou na guerra prático deleite

Apoderou-se o homem da direção da casa
Degradou a mulher ao conjunto de escravos
A incluiu na riqueza que a si mesmo arrasa
E, ao invés de amor, deu-lhe cruzes, cravos



Desorientação ocidental
Eunápio Mário


Da Europa, a loura colonizadora
Temos a prática de ajuntar riquezas
A partir de um conhecimento pardo
Que contrapõe sabedoria com rezas
E isola espécies que sobrevivem ao pasto

Em meio às crendices logarítmicas
Multiplicamo-nos ao sexto bilhão
E atacamos com a antiga fome
As naturais fontes de produção
Sem reparar na devastação, seu rastro

Derrubar a mata, fabricar desertos
Dominar a técnica de empobrecer o mar
Ao invés de paz, enaltecer a guerra
Pra que alguns a lua possam visitar



DNA do ADN
 Eunápio Mário


Ciência da fome
Tecnologia da exploração
Dinheiro virtual da Bolsa
Corrompendo a vida

Ai de ti hereditariedade
Genoma tomou teu lugar
E clonará ingleses
No mundo todo

Os americanos, então
Os chamarão Dolly
Com seus depósitos bancários
Feito cajados invisíveis

E serão pastores da Terra
Com os mesmos direitos
Que os sionistas
Pastoreiam os palestinos





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